quarta-feira, 10 de março de 2010
 
10 anos de ordenação feminina!
19/01/2009

Dia da Mulher
10 anos de ordenação feminina!
Eleni Rodrigues Mender Rangel

O Dia Internacional da Mulher é um dia de reflexão acerca do lugar da mulher no mundo e de luta contra discriminações e injustiças das quais as mulheres são vítimas cotidianamente, embora, às vezes, algumas formas de injustiça e discriminação sequer sejam percebidas por discriminadores e discriminados.

Infelizmente, até os nossos dias, a igreja ainda tem sido, muitas vezes, lugar de perpetuação de práticas discriminatórias e marginalizadoras. Em muitos lugares do mundo e em diferentes denominações, filhos e filhas de Deus são deixados à margem, seja pela cor de sua pele, ou por terem necessidades especiais, ou por serem muito jovens ou muito velhos, e assim por diante. Frequentemente, a própria Palavra de Deus é usada para justificar tais atitudes.

Entretanto, o Jesus dos evangelhos estava sempre acompanhado de seus discípulos e seguidores, na sua maioria, pessoas marginalizadas: camponeses, pescadores, artesãos, mulheres, publicanos... Jesus sempre demonstrou a eles um carinho especial pelas crianças, pelos pobres, pelas mulheres e por todos aqueles que sofriam algum tipo de discriminação. Essas pessoas depositaram suas esperanças na pregação de Jesus e em seus ensinamentos sobre o Reino de Deus, porque tais ensinamentos abriam a perspectiva de que as coisas pudessem, finalmente, ser diferentes para elas, já que sempre haviam sido deixadas de lado.

Em seu livro “As mulheres no movimento de Jesus, o Cristo”, Elza Tamez, teóloga mexicana que vive na Costa Rica, onde é professora da Universidade Bíblica Latino Americana, um aspecto relevante do movimento iniciado por Jesus era a proposição de alternativas ao controle hegemônico do império romano. Particularmente, do ponto de vista da mulher, é importante enfatizar a força libertadora frente à opressão patriarcal do império romano e as práticas tradicionais do judaísmo. Jesus era um crítico incisivo da cultura judia. Isso não reflete uma postura anti-judaica, mas, como judeu, Jesus assumiu uma posição auto crítica com respeito à mentalidade patriarcal de sua cultura e da cultura romana, toda vez que esta mentalidade se convertia em alguma forma de opressão. Jesus fez o que todos e todas nós devemos fazer: questionar e criticar construtivamente nossa própria cultura religiosa e social.

A igreja fundada por Jesus era uma comunidade de iguais. Ele propunha uma ordem diferente do modelo hierárquico a que estavam acostumados (ou será que o verbo deveria estar no presente: estamos?). Os ensinamentos de Jesus eram contrários aos que queriam ocupar os primeiros postos. Ele criticava duramente as autoridades por submeterem os demais, assim como censurava as autoridades religiosas que se consideravam muito santas, mas marginalizavam e discriminavam os que julgavam impuros,  aproveitando-se das viúvas e dos mais fracos.

Muitos estudos provam a participação das mulheres na igreja e no cristianismo primitivo. Infelizmente, essa participação foi sendo eliminada paulatinamente. Ainda segundo Elza Tamez, documentos bíblicos e extra bíblicos até o final do século primeiro e, com mais força, posteriormente, mostram como as mulheres foram sendo silenciadas. Porém, o mais grave é que, com isso, se perdeu também a concepção de igreja como uma comunidade de iguais em todos os sentidos: econômico, cultural, ético e de gênero. A hierarquização e a acomodação às estruturas da sociedade patriarcal romana foram aparecendo enquanto diminuía a radicalidade crítica e profética dos seguidores de Jesus contra qualquer tipo de opressão.

Assim, quando completamos 10 anos da decisão da Assembléia Geral da IPI do Brasil que deu também às mulheres o direito de exercerem o ofício de presbíteras e pastoras, somos desafiadas e desafiados a continuar buscando viver cada vez mais o genuíno evangelho pregado por Jesus, onde todas as pessoas são igualmente importantes e capazes de servir ao Reino, justamente porque, nas diferenças, somos parte do precioso mosaico minuciosamente elaborado pelo Senhor.

O ministério ordenado feminino ainda tem muito que avançar a fim de ocupar os espaços de serviço que foram propostos pelo próprio Senhor ao comissionar seus filhos e filhas a proclamar as boas novas. Jesus oferece um projeto de vida nova e nos desafia a comprometermo-nos com a transformação pessoal e social da criação de Deus.
Deus assim nos ajude e, em especial, a você mulher pastora e presbítera da IPI do Brasil.

A Eleni, presbítera da 3ª IPI de Santo André, SP, é 2ª vice-presidente da Assembléia Geral da IPI do Brasil

 

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